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taleof2gods's journal
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As águas geladas já amorteciam os pés e as mãos do jovem Vermelho, mas isto não era suficiente para diminuir seu ritmo. Dentro de três ou quatro minutos alcançaria a parede rochosa que dificultava o acesso à ilha. Chegando lá, teria de lutar contra a corrente mais forte. Ele sabia que a maneira mais fácil de chegar à terra seca era encontrar uma galeria imersa que conectava mar e praia, na forma de uma gruta estreita e perigosa. Quando as águas começaram a empurrá-lo violentamente para longe, prendeu a respiração da maneira ensinada por seu pai e mergulhou, permitindo que a força invisível das águas o levasse até o lugar certo. "Se deixe levar até avistar a rocha vermelha. Nade até ela e encontre a entrada da passagem. Mas se perder de vista as rochas certas, não espero tempo demais. A correnteza é forte e pode levá-lo muito longe". Esta foi a única dica que recebeu de seus companheiros. Era também a mais importante. Encontrar a passagem era fundamental, pois a ilhota possuía uma barreira de corais na costa norte, e era para lá que seria jogado se não conseguisse atingir seu objetivo. Os corais em si não eram tão problemáticos, mas a fauna venenosa que ali habitava oferecia um risco grande. Era fácil evitar tais águas com um barco, mas qualquer nadador cauteloso sequer se aproximava. Irô avistou um borrão avermelhado e utilizou mais da metade do ar que tinha em seus pulmões para alcançá-lo, descobrindo para sua felicidade que estava no lugar certo. Agitou-se um pouco mais até encontrar, logo à esquerda das rochas, a fonte de luz que denunciava nas primeiras horas do dia a pequena passagem. Mais uma braçada e conseguiu voltar a respirar. Seu coração batia de maneira acelerada, o ar encontrava dificuldade de chegar a seu peito...mas a adrenalina o impeliu a continuar seu caminho entre as pedras escorregadias e cheias de algas. Ao chegar à pequena praia, deixou o corpo tombar na areia que começava a esquentar e cochilou. Meia hora havia se passado quando recobrou a consciência. Tinha fome. Lembrou de sua missão e entrou na mata buscando o caminho para chegar ao cume mais alto do lugar, onde deveria encontrar a árvore dourada. Depois de encontrá-la procuraria por comida. Porém, nem bem havia dado o vigésimo passo na direção que escolheu quando ouviu algo assombroso. Parecia-se com um lamento. Mas que animal seria capaz de emitir um uivo como aquele? Por um instante pensou em ignorá-lo, mas algo muito maior o atraía. Voltou para a praia e caminhou junto às espumas que lambiam a areia até encontrar, escondida atrás de outras rochas, uma pequena piscina natural, que desembocava no mar e que parecia estar livre das correntes mais fortes. E então, ele a viu. Sua pele era azulada e refletia a luz do Sol. Ela possuía escamas pequenas e delicadas, rosadas em alguns pontos, por toda sua superfície. Seus cabelos eram negros e volumosos, e mesmo molhados pareciam muito sedosos. Estava de costas, sentada na piscina, e água cobria sua cauda, deixando apenas a parte humana para fora. E então, para desespero de Irô, ela se virou e o viu. Mas ao contrário do que temia das lembranças das histórias que lhe contavam na aldeia, o rosto da sereia não era apenas belo, mas também triste. Seus olhos eram dourados e grandes, e ela os fechou por alguns instantes, sem mudar a posição de seu corpo, como que se concentrando em algo. Então começou a cantar a canção mais doce que nosso rapaz aventureiro jamais ouvira. E a música pouco a pouco foi penetrando os pensamentos confusos de Irô. Em um tempo curto, ele estava completamente livre de qualquer livre-arbítrio. "Venha até mim." Ela lhe disse, sem deixar de continuar a cantar entre uma ordem e outra."Entre aqui e sente-se ao meu lado". Irô obedeceu maravilhado a criatura, enquanto um sentimento de felicidade plena, que é justamente o efeito do controle do poderoso canto das sereias, dirigia seus movimentos. "Você me encontrou perdida aqui. E vai me levar até sua praia. Mas para isso, precisa me dar o que eu quero e me obedecer cegamente. Não vai se lembrar de quem sou, ou questionar. Irá simplesmente me aceitar. E defender. Me beije." E então, depois de tirar de cima dos lábios o cabelo prateado do jovem, depositou os seus, que eram frios e úmidos, no beijo de dominação de sua espécie. Embora não se ouvisse mais música alguma, seu efeito era duradouro. E enquanto ambos trocavam carícias com suas línguas, a natureza dirigia os impulsos de Irô. Para ela, tudo corria como planejado. Sereias são criaturas que dependem da interação com os humanos para perpetuar sua linhagem. Como são fruto do amor proibido entre o grande deus de todo Oceano Nor e a mortal Callid, foram amaldiçoadas em nome de sua mãe com a impossibilidade de gerar reprodutores. São obrigadas, então, a embriagar com seu canto jovens humanos e, após provar de seu sangue e ganhar as formas femininas das mulheres, receber em seu corpo as sementes que lhes trarão suas filhas. Elas vivem muito mais que qualquer criatura mortal, e a época da reprodução só acontece a cada meio século. Ainda assim, o sangue e o sêmem humano sempre são utilizados quando existe a necessidade de uma callidiana caminhar sobre a terra. Ni, a representante deste povo considerado maldito por muitos e que tinha em seus braços um Lagarto, cravou suas presas afiadas feitas para triturar coral suavemente na pele macia e quente do pulso de sua presa, abrindo uma ferida grande o suficiente apenas para que o sangue vermelho entrasse em contato com sua saliva. A mistura que faria em sua boca seria novamente inoculada em Irô, e funcionaria como um potente afrodisíaco. Sua cauda já se repartira em duas, e tomado pelo calor da química que percorria agora seu corpo, o rapaz retirou-a da água, jogando seu corpo sobre a areia e buscando o caminho para liquidar o desejo que ardia sob sua pele e enfurecia seus movimentos. A cópula durou pouco tempo, e foi intensa e bem sucedida. Irô depositou na sereia seu êxtase, desfalecendo segundos após seu clímax. Enquanto seu corpo se recuperava e sua mente continuava a vagar nas brumas, Ni o fez rolar para o lado, libertando o seu próprio. Sabia que a transformação era brutal, e não queria arriscar despertá-lo de seus encantos com suas convulsões. Em instantes sua garganta secaria, assim como suas escamas se esconderiam sob a pele, que terminaria por assumir a coloração rosada dos homens mortais. Seus cabelo continuariam negros, mas enrolariam e passariam a exalar o perfume das callidianas. Seus pés se formariam e suas unhas brotariam, no lugar das nadadeiras translúcidas. Seu rosto ganharia tons rubros nas maçãs, embora os olhos dourados se mantivessem iguais. E assim, após conseguir do jovem humano o que lhe pedira, ficaria inconsciente como em um sono inocente de filhote. E pela primeira vez desde que deixara seu reino, os sonhos de vingança e ódio que a trouxeram até a ilha a deixariam em paz. Tudo a seu tempo, pensou antes de desfalecer. Tinha um companheiro sob seu domínio para protegê-la em terra, e tinha motivação. Ninguém conseguiria desviá-la de seu objetivo. Só não desconfiava que atingir a Praia Vermelha seria mais difícil do que esperava, já que Aki e seus amigos continuaram o ritual, afastando-se da ilha com o único barco que poderia facilitar o percurso. |
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"De onde esta criatura surgiu?" Era o pensamento de Alaris ao observar a jovem que, deitada em sua cama, permanecia adormecida. O caçador habilmente fizera um curativo em sua cabeça e cobrira seu corpo frágil com uma grossa manta de lã. A noite lá fora estava escura e fria e a jovem permanecera quieta por toda tarde. A visão daquela menina perturbava ao mesmo tempo em que fascinava Alaris. Ela possuia uma beleza incomum e atirada ali quase morta parecia incrivelmente indefesa. Alaris observava o corpo inerte da jovem numa tentaiva quase inutil de saber sua identidade. Ela vestia roupas bem costuradas e possuia entre seus pertences uma pequena faca. Tais sinais indicavam que a criatura ao menos seria racional, sem no entanto revelar se era hostil. O caçador ja quase adormecia sobre sua cadeira de vime quando sua presa se mexeu. Uma tosse seca e constante explodiu de seu peito enquanto a substância que a mantivera adormecida perdia seu efeito. Marjorie se retorceu na cama somente para perceber que seus pés e braços estavam atados. A jovem gritou, uma mistura de raiva e força tentando se livrar das amarras que impediam seu movimento. Alaris, com sua besta carregada a seu lado apenas observava enquanto a criatura lutava para se livrar de seus nós de caçador. Passados alguns minutos e vendo que a jovem se cansara, Alaris tentou iniciar uma conversa: - Você tem um nome? Marjorie ouviu os sons sairem dos lábios de seu captor sem entender sequer uma palavra do que ele dizia. Os mesmos sons se repetiram e a jovem assustada não podia fazer nada a não ser observar. - Me largue, eu não lhe fiz nada - disse a rastreadora para o estranho homem a sua frente. Alaris viu os lábios da jovem se moverem, liberando deles sons guturais que feriam seus ouvidos. Ficou óbvio para ele, que aquela criatura não compreendia sua língua e assim ele tentou se comunicar por gestos. Marjorie por sua vez, cansada de lutar contra as cordas, fixou seus olhos em sua mochila até que Alaris nota-se o que ela queria dizer. - Você quer algo daquela mochila? - perguntou o caçador sentindo o quão inutil era sua pergunta. Marjorie seguiu olhando o embrulho até que Alaris se levanta-se e pegasse o pacote no canto da sala. Ele então colocou o embrulho sobre o peito da jovem, apontou sua besta para seu coração e em seguida cortou uma das cordas que segurava seu braço. A rastreadora enfiou a mão em sua mala, que já havia sido despojada de sua adaga e qualquer objeto que pudesse usar como arma. Com dificuldade ela alcançou um pequeno embrulho e de lá retirou uma linda flor avermelhada. O caçador observava atentamente e se assustou quando a jovem enfiou a flor toda em seus lábios, mastigando suas pétalas e deixando que um licor de cor avermelhada escorresse por seus lábios. O sabor adocicado da planta acalmou os ânimos de Marjorie que tentou a sua forma se comunicar. Ela apontou para a corda que segurava seus pés e mãos e olhando fixamente para Alaris, apontou para a faca em sua cintura. - Se eu a soltar, você ira se comportar? Marjorie permaneceu olhando fixamente para Alaris, enquanto este lentamente se aproximava com sua faca em punho. Com a besta ainda apontada para a jovem, o caçador cortou a outra corda que segurava sua mão, dando um passo para trás em seguida. Com suas mãos livres, a jovem foi capaz de desatar seus pés, sempre de olho na poderosa arma que seu captor apontava para ela. Profundamente cansada pela luta contra as cordas, Marjorie sentou-se ao pé da cama e com alguns gestos tentou demonstrar como caira na armadilha preparada e tentava entender como fora parar ali. Alaris acenou positivamente com a cabeça, apontando em seguida para a cabeça de um dos cervos em sua parede, dando a entender que Marjorie não era seu alvo. Por mais alguns minutos, ambos os seres tentaram se comunicar com gestos e sons até que Marjorie repentinamente silenciou. Suas narinas haviam captado algo no ar enquanto uma brisa ligeiramente forte balançava as cortinas que pendiam da janela aberta. Um estranho som abafado pode ser ouvido do lado de fora, algo como fortes lufadas e vento que a cada segundo se aproximavam mais e mais da cabana do caçador. O instinto rastreador de Marjorie tomou todo seu corpo e ela, sem pensar, agiu rapidamente. Com um único golpe ela foi capaz de desarmar Alaris e segundos depois o segurava firmemente no chão. O caçador tentou lutar para se desvencilhar, buscando em sua bota sua faca de caça. A luta durou poucos segundos até Alaris perceber para seu terror que o telhado de sua cabana havia sumido. Um forte estrondo ecoou pela floresta enquanto algo genuinamente gigantesco se chocara contra as paredes da cabana. Se estivesse em pé, provavelmente sua cabeça e metade de seu corpo teria sido levados juntos. Ambos olharam para trás, para o enorme vulto negro que passara voando por suas cabeças e que agora fazia a curva entre as nuvens do céu. O gigantesco monstro agora planava batendo vigorosamente suas asas negras enquanto respirava fundo o ar gelado da noite. Seu rosto, oculto pela escuridão repentinamente se iluminou quando uma ardente bola de fogo saiu de sua boca. O projétil flamejante passou por cima da cabeça de Alaris que assistiu horrorizado a bola de fogo atingir as árvores de seu preciso bosque. Logo o azul da noite foi substituído pelo alaranjado das chamas e ambos sabiam que havia pouco tempo para sair dali. |
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Além da Grande Floresta Amarela, à margem norte do rio Bakkur, começavam as terras do clã Liha. Seus outros limites eram as cordilheiras de Bon e Azul e o próprio oceano. Uma de suas poucas peculiariedades era uma ilhota localizada a pouco menos de um quilômetro de distância da Praia Vermelha, de difícil acesso por sua formação geológica acidentada. Coberta por uma densa mata e de encosta rochosa, servia de berço para algumas das variedades mais belas de coral, assim como espécies próprias de peixes e até mesmo uma gaivota de penas negras e bico azul avistada apenas por lá. As crianças das aldeias praianas costumavam ouvir histórias sobre criaturas fantásticas habitando as tais terras isoladas, mas a verdade é que ninguém nunca sequer avistara uma borboleta de cor diferente por aqueles silenciosos lados. Ainda assim, constituia prova de coragem comum entre os jovens, quase rito de passagem, o resgate de pomos amarelados que brotavam somente naquelas sugestivas florestas. Os tais frutos pendiam de galhos carregados de árvores anciãs agarradas ao solo da parte mais elevada de seu relevo, e mais do que saborosos, recompensavam seus algozes com uma vista espetacular e única do horizonte azulado. Naquele verão Irô completaria dezenove anos, e portanto era esperado que cumprisse a tarefa que seus amigos insistentemente lhe cobravam há pelo menos dez luas. Mesmo as meninas, que eram deixadas de lado na tradição, colaboravam com a torcida e expectativa, e algumas nutriam a esperança de ficar com o troféu. Acreditava-se que do suco dos pomos se podia extrair um elixir com poderes fantásticos, dentre eles o de proporcionar sonhos premonitórios às mulheres. Munido de sua faca de caça e o melhor calção que possuía, seria levado de barco pelos colegas até metade da distância entre as areias rubras da praia e a ilha, e de lá deveria enfrentar sozinho a corrente e o cansaço até a segurança precária dos rochedos. Apesar de esconder bem o nervosismo, o desjejum que comera há pouco agitava-se em seu estômago. Era cedo, pouco mais da oitava hora, e as águas estavam gélidas. Por que sua mãe não esperara até o verão para colocá-lo no mundo era a pergunta mais racional, mesmo em seu absurdo, que conseguia formular entre toda a ansiedade. -Chegamos, Lagarto. Daqui você vai sozinho - disse Aki, usando o apelido carinhoso dado pelos veteranos aos mais novos. Três anos antes fora ele a saltar de uma embarcação em busca de sua aventura, e se tornar um exemplo para o irmão havia sido um dos estímulos que o ajudara a enfrentar o frio e o medo naquele dia remoto. Agora era uma Dragão adulto, respeitado pelos mais jovens e notado pelos mais velhos. Colocando as mãos sobre os ombros de Irô, beijou de leve os lábios do irmão, para depois fazer o mesmo com sua testa. Apesar de não possuírem laço de sangue, a fraternidade entre os Vermelhos podia ser herdada de geração a geração. Os pais de ambos foram irmãos de honra, assim como seus avós. E apesar de filhos únicos de mães que não dividiam a mesma família, Aki e Irô foram criados para serem inseparáveis. Não deveriam miscigenar seus sangues, pois era fundamental para o equilíbrio da aliança que suas características únicas fossem preservadas. O dia em que seus descendentes nascessem com a mesma cor de cabelo prata de Irô ou com olhos de duas cores como Aki, a união espiritual da família, assim acreditavam, estaria maculada. -É hora, Aki. Deixe o lagartinho molhar as garras - brincou Ley, um dos rapazes que compunha a comitiva de Irô. Um pouco embaraçado, o mais novo apenas sorriu e deu as costas à todos. Respirou profundamente algumas vezes, trocou um último olhar com o quarteto e tão silenciosamente como no último arco de minutos, se atirou ao mar. O choque térmico entorpeceria a qualquer um, mas não alguém tão determinado quanto o menino. Era esperado por todos que, na compreensão de Irô, as braçadas que dava para se locomover fossem percebidas como um impulso de sobrevivência. Como os dragões reais, que eclodiam de seus ovos dentro dos rios de lava e precisavam alcançar a superfície para expulsarem o fogo de seus pulmões, aquela nada singela travessia representaria um renascimento, se bem sucedida. A correnteza ao redor da ilha era traiçoeira, e nem todos que tentavam vencê-la a nado conseguiam. Aki acompanhava com olhar ansioso o distanciamento da figura escura do irmão, tentando ignorar o sentimento misterioso que se agitava em seu coração. Um misto de instinto protetor e desconfiança. Sonhara com alguma coisa perturbadora na noite anterior, e mesmo não conseguindo se lembrar de detalhe algum, algo lhe dizia para se manter alerta naquele momento. * Naquele trecho da floresta Marjorie se viu obrigada a tentar deslizar por entre dois paredões rochosos para evitar perda de tempo. Estava ao pé de uma montanha, e em seu mapa aquela era a melhor alternativa em se tratando de segurança. Chovera bastante dois dias antes, e apesar de já quase seco, o terreno ali ainda deslizava bastante, castigado pela erosão natural. Mas antes de sentir a segurança da terra sob suas botas, estalou com o pé algo estranho. Teria tido tempo de se atirar para o lado defensivamente não estivesse limitada pela rocha dura que parecia decidida a expulsá-la em direção à clareira. E antes que se desse conta de como acontecera, balançava de ponta-cabeça a quase três metros do chão, presa pela perna esquerda, numa arapuca armada sabe-se-lá por quem, no meio da mata silenciosa. O fardo que carregava escorregou-lhe das costas, não sem antes premiar-lhe com uma pancada certeira na têmpora esquerda com a pedra que horas antes resolvera carregar por precaução. O golpe não fora fatal, mas suficientemente forte para bagunçar-lhe os sentidos e mascarar a aproximação cautelosa do autor da armadilha. Não fosse a pedrada, Marjorie teria utilizado sua adaga para se libertar, mas não fora esse o desejo de seus deuses, e agora tudo que lhe restava era o capricho de sua Sorte. Cinco minutos depois, talvez um pouco mais, trajando vestes camufladas e carregando sua besta, Alaris irrompeu da vegetação na mesma clareira, atraído pelos ruídos de alívio característicos das árvores que se libertavam da tensão de seus arranjos, os mesmos que ironicamente produziam nova comoção, esta mais parecida com um lamento, das criaturas que capturava. Para sua surpresa, a figura humana que pendia atordoada dos galhos altos em nada se assemelhava com qualquer outro mamífero. Tinha a pouca pele exposta coberta de lama, os cabelos longos, escuros e emaranhados em uma trança e vestia um tecido grosso e tão meticulosamente vedado que mais parecia o traje de um habitante dos Grandes Desertos. Não sabia deduzir muito mais além de que sua presa era uma fêmea e precisava de cuidados, pois um fio constante de sangue escorria de sua testa. Correu então até a base do tronco que sustentava o conjunto e cuidadosamente afrouxou a corda que terminava enroscada na canela da viajante. Desceu-a com delicadeza, percebendo um princípio de consciência se manifestando através de reflexos instintivos de desespero, e antes de permitir que sua misteriosa companhia fosse percebida, atou as pequeninas mãos e pés, proporcionais ao resto do corpo, de maneira firme. Umideceu um pouco do pano limpo que carregava para estas ocasiões na solução entorpecedora que ele mesmo preparava e aproximou-o do nariz de sua vítima, até que seu corpo relaxasse e deixasse de oferecer resistência ao trajeto que percorreria nos ombros de Alaris até sua cabana. |
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Uma forte luz de cor alaranjada adentrava violentamente pelas frestas da janela de madeira escura. Um barulho horrivel, semelhante a respiração de um gigantesco dragão soava vindo do bosque la fora, porém a criatura que la estava era mais feroz do que qualquer ser dracônico. Alaris levantou-se de sua cama de sobresalto, desacreditando no que seus sentidos aguçados insistiam em lhe afirmar. Uma fumaça cinza se arrastava por debaixo de sua porta e um calor infernal tomava conta de sua choupana. O caçador abriu a porta e para seu horror viu sua terra mergulhada em chamas. As labaredas lambiam os troncos de árvores centenárias enquanto os animais assustados corriam desordenadamente apenas para encontrar a morte mais adiante. O fogo devorava com seu apetite voraz tudo aquilo que Alaris chamava de lar e estranhamente parecia-lhe que sua cabana havia sido poupada para que ele pudesse assistir aquele espetáculo de horror. O suor escorria de seu rosto, enquanto seu corpo se debatia ante a proximidade do fogo. Foi em seu ultimo instante que ele gritou, apagando as chamas de sua mente e despertando de seu profundo sono. Alaris se viu em sua cama e o calor insuportavel foi substituido por uma leve brisa que soprava carregada de orvalho. O céu permanecia alaranjado, mas ao invés de chamas era o sol nascente que jorrava sobre o reino seus primeiros raios de luz. Ainda assustado com seu pesadelo, o caçador foi até sua comôda, pegou um grande jarro de água e molhou seu rosto jovem e pouco vincado. A água molhou seus cabelos cacheados e escorreu por sua longa costeleta castanha que por pouco não se conectava pelo queixo ao outro lado de sua cabeça. Seus olhos eram igualmente escuros, apesar de apresentarem um certo tom acinzentado. Tendo um longo dia adiante, Alaris vestiu sua roupa de trabalho, uma bota de couro de cano longo e uma bata curta de tom esverdeado. Colocou em suas costas a pequena besta e junto dela os dardos cuidadosamente preparados na noite anterior. Um emissário real já lhe avisara na tarde de ontem que o rei receberia convidados em seu palácio e caberia a Alaris providenciar a diversão para depois do almoço. Estando pronto e alimentado por um pedaço de pão seco, o caçador dirigiu-se para bosque próximo, tão vivo e diferente do que vira em seu pesadelo. Não tardou até que as altas coniferas o cercassem e o chão antes de grama se visse recoberto dos perigosos galhos secos. Em sua profissão, Alaris sabia da necessidade de se incorporar ao seu meio. Ele não deveria fazer barulho e tão pouco ser tão silencioso, pois os animais que ele caçava percebiam as mais breves nuances da floresta. Ele procurou por quase duas horas até encontrar o exemplar aparentemente perfeito para aquele dia. O cervo de porte altivo e pelagem castanha encontrava-se parado bebericando água de um riacho próximo. O olho clinico de Alaris analisou cada minuncia daquele animal. Os musculos de sua perna, o que lhe permitia correr velozmente; O brilho de seus olhos e de sua pelagem, o que significaria estar saudável. Cada ponto foi cuidadosamente esquadrinhado até a necessidade de se fazer o último teste. De forma calculada, o caçador partiu ao meio um galho seco e observou quando o animal imediatamente ergueu sua cabeça para observar a sua volta. Este cervo era exatamente o que ele procurava, forte e atento e sem duvida uma fonte de diversão para sua majestade. Alaris tencionou a corda de sua besta, colocou o virote umidecido na substância esverdeada e como o vento que sopra por entre as folhas, aninhou-se no chão até conseguir uma posição. Seus olhos cinzas olharam por entre as fendas da mira e com um leve toque ele puxou o gatilho. A seta voou por entre as árvores, atingindo o animal de forma certeira em seu lombo. O cervo uivou, um silvo de dor e medo e rapidamente passou a correr. Alaris levantou-se tranquilamente e caminhou na direção que o animal fugira na certeza que era uma questão de tempo até que o sonifero fizesse seu efeito. Foi necessário apenas caminhar alguns metros até encontrar a criatura meio desfalecido sobre o chão da floresta. O animal murmurava lamentos enquanto o caçador arrancava-lhe o dardo e produzia um curativo. Ele então amarrou as pernas do animal, colocou cuidadosamente sobre suas costas e partiu de volta até sua choupana. Apesar de potente, o efeito do sonifero era breve e ele deveria colocar sua caça na jaula antes que esta tivesse a chance de fugir. O caçador havia feito isso quase que por toda a sua vida, mas ainda sim se sentia culpado pelo destino que ele dava a esses seres da natureza. Antes do meio dia o emissário real passaria em sua casa como de costume, levando sua presa em troca de uma gorda bolsa de ouro. Ele sabia que o pobre cervo seria soltou dentro dos bosques reais, no interior das muralhas do castelo, para que o rei e seus convidados desfrutassem do prazer da caça sem os riscos reais que uma floresta oferece. A carne tenra do animal seria preparada com maestria pelo cozinheiro real enquanto sua cabeça empalhada para decorar mais um dos inumeros aposentos do castelo. Quando tudo havia terminado, o caçador finalmente se recolheu. O dinheiro da caça seria usado na manhã seguinte para comprar aquilo que ele era incapaz de retirar da floresta e ele esperava que ao menos essa noite, ele tivesse um sono tranquilo. |
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Capítulo 1 Alvorada. O ar gelado e claro da manhã sempre bem-vinda era incômodo demais para Marjorie. Preferindo levantar a lutar contra toda aquela luz, descobriu-se da pelagem que lhe servia de coberta e escorregou tronco abaixo até o chão fofo da floresta. Não existia silêncio após o nascer do Sol, e seu olfato apurado já apreciava, mesmo ainda sonolenta, as cores das flores doces que degustaria como café-da-manhã. Precisava das frutas, também, mas as flores sempre foram suas preferidas. Lembrou-se de que ainda faltavam pelo menos dois dias de jornada até seu destino, e silenciosamente amaldiçoou o fato de não existir ninguém em quem confiasse mais além de si própria para aquela missão. Mas como todas as suas maldições, esta era inofensiva. Acreditava demais no poder das palavras, e evitava, sempre que possível, pronunciar ou mesmo imaginar qualquer coisa que pudesse comprometê-la. Este hábito, quase uma obsessão, a tornara uma pessoa calada, muitas vezes tomada por quem não a conhecia como pouco confiável. Mas não existia arrependimento ou vergonha. Se qualquer pessoa preferisse confiar mais em alguém que falasse pelos cotovelos, seria problema dela. Caminhou pouco até encontrar o arbusto de morangos silvestres e comeu seu desjejum. Reuniu sua bagagem, checou o mapa e retomou o caminho mata adentro. Menos de um quarto de hora depois começou a ouvir o barulho de uma cachoeira, e desviou um pouco sua rota até encontrá-la. A queda d'água abastecia um riacho não muito profundo, perfeito para o banho de que tanto sentia falta. Largou no chão sua carga, despiu-se das vestes que encobriam suas formas femininas e se atirou na água gelada, não sem antes munir-se de sua adaga. Nua sim, desarmada nunca. Mas a cautela foi desnecessária. Ninguém desconfiava de seu paradeiro, e ninguém a procuraria justamente ali, mesmo que encontrá-la fosse de vital importância. Marjorie era a melhor rastreadora de seu povo, e sabia encobrir sua trilha melhor do que muitos habitantes daquela floresta. Antes de seguir em diante, cobriu com a lama limpa da margem a pele clara do rosto, único e gritante indício de que não era, de fato, filha de quem dizia ser. Não que seu valor houvesse sido questionado novamente após aquele dia, anos antes, onde cumpriu com honra as exigências do ritual. A experiência ainda lhe trazia arrepios às costas, sempre seguidos de uma intensa satisfação. A lembrança da superação de um obstáculo. A memória da vitória sobre o temor. Apertou o pedaço de couro que usava como cinto e reabasteceu o cantil. Recolheu uma pedra lisa e redonda e, envolvendo-a em um pedaço de pano, prendeu-a à lateral do fardo que carregava. Apenas por precaução. O peso agregado era pouco, quase ínfimo diante da segurança extra que oferecia em troca da viagem. Arrancou com cuidado um exemplar vermelho de uma das flores que encontrou ao retomar a trilha e, mastigando com gosto, lambeu o suco rubro que escorria do seu sorriso. O silêncio das vozes sempre a reconfortava com as melhores memórias. |
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